E se — Reflexões sobre a viagem no tempo e relações interpessoais
Memória, causalidade, livre-arbítrio e amizade virtuosa se encontram numa reflexão sobre o desejo de reescrever o passado e a tarefa de ordenar o presente.
A Prohairesis nasce da convergência de duas potências da alma: Orexis e Nous. O primeiro — o apetite — é o motor que impulsiona o homem em direção ao bem aparente; o segundo — o Intelecto — é a luz que depreende a Verdade e ordena o fim. Atuando como um poeta (Nous) que, ao abrir suas gavetas com dezenas de sonetos (Verdade), mergulha a pé. E em relação ao livre arbítrio: caso fizéssemos escolhas diferentes, estaríamos agindo de acordo com um plano predeterminado ou digladiaríamos a verdadeira liberdade de escolha?
Há, entretanto uma outra categoria: o tempo. Tudo tem um passado e um futuro; tudo procede de um lugar, e se encaminha para outro. E é impossível saber qual seja essa origem e essa destinação, a menos que se tenha o que vulgarmente é chamado “palpite”.
O pretérito imperfeito do subjuntivo é identificado materialmente pelo sufixo -esse, frequentemente articulado com a conjunção “se”, estabelece uma estrutura condicional ou hipotética. Essa construção permite à consciência processar a realidade não como um dado imutável, mas como uma narrativa de possibilidades.
Nesse processo, a imaginação — faculdade mental complementar à memória e fundamental à percepção sensível — oferece o cenário das possibilidades, permitindo que a Razão examine a causalidade para além dos fatos observáveis. É através da tensão entre potência e ato que a linguagem nos permite examinar o “poder ser” sem a necessidade do “ser de fato”, elevando a simples capacidade a uma presença na fantasia.
Neste contexto, a aplicação dos princípios metafísicos de Aristóteles tornaria a viagem no tempo uma impossibilidade lógica. No entanto, a atualização do passado — operada pela imaginação e ordenada sob a luz da Razão — permite este retorno reflexivo, visando não a alteração dos fatos, mas a estruturação da personalidade e o desenvolvimento da inteligência.
Qualquer salto temporal — além das implicações físicas — evoca controvérsias filosóficas sobre a identidade e o livre-arbítrio: se regressássemos, ainda seríamos nós mesmos? A nossa experiência, pilar do conhecimento empírico formado pela memória e pelas sensações, constitui o saber prático, ainda que necessite da razão e das artes liberais para atingir a plenitude. Sendo ela o que determina quem somos, alterar o passado implicaria transformar-nos em pessoas diferentes — ou gerar um paradoxo onde, ao reescrever a causalidade, dissolve-se a memória que nos ancora, não restaria sujeito capaz de trazer clareza, nem “eu” que sobrevivesse à própria reescrita.
A Prohairesis nasce da convergência de duas potências da alma: Orexis e Nous. O primeiro — o apetite — é o motor que impulsiona o homem em direção ao bem aparente; o segundo — o Intelecto — é a luz que depreende a Verdade e ordena o fim. Atuando cocom um poeta (Nous) que, ao abrir suas gavetas com dezenas de sonetos (Verdade), mergulha a pena da Vontade na tinta da Paixão (Orexis) para escrever seu próximo poema. Por isso, quem escolhe o mal não exerce a liberdade, mas revela-se escravo da ignorância ou do vício — pois sua Prohairesis falhou em submeter o desejo à retidão da razão. A verdadeira liberdade, portanto, não é a mera capacidade de agir, mas a competência de eleger os meios adequados para um fim natural superior.

Embora a mecânica relativista pressuponha a factibilidade de dobras no tecido espacial, a metafísica clássica admite uma única exceção: a “viagem temporal” no exercício da Inteligência e no domínio da alma. Esta concepção contrasta com o livre-arbítrio moderno: enquanto Hume rebaixa a liberdade à mera satisfação do desejo — reduzindo a razão à serva das paixões — e Kant a isola no formalismo do dever (autonomia da vontade sobre si mesma), a Prohairesis determina que o Orexis se submeta à Verdade, assegurando o caráter ontológico da liberdade.
Tal simulacro didático, respeitando os princípios naturais de Física — que examina a natureza sensível e mutável —, permite discutir o valor da experiência, os futuros contingentes gerados por cada ação, referenciando o tempo enquanto agente quantitativo de movimento. Portanto, a ânsia por corrigir erros, evitar perdas e reescrever o destino revela-se uma armadilha: não da Orexis em si, mas de um instinto — de caráter humiano —, onde o apetite usurpa a regência da Razão.
Na hierarquia das ciências filosóficas, ordenadas pela proximidade à Verdade, temos: Teologia, Ética e Física. Ao examinarmos a base elementar desta última, faz-se necessária a distinção aristotélica entre movimento natural e movimento violento. O primeiro trata do deslocamento espontâneo de um corpo em direção ao seu “lugar natural” (conforme a afinidade com um dos quatros elementos: água, ar, fogo e terra). O segundo constitui a imposição de uma força externa a um corpo, contrariando sua tendência natural ao repouso ou ao retorno. Consequentemente, tais movimentos operam por princípios antagônicos (um intrínseco e o outro extrínseco). Visto que este último contraria a natureza do corpo, uma viagem do tempo configuraria uma perturbação na ordem ontológica da coisas — o que justifica a impossibilidade física. Resta, portanto, à imaginação e à Razão o papel de artífices dessa transcendência metafísica.
Para fundamentarmos as bases na Ética, antes recorramos à Retórica: no campo das relações interpessoais, a Philia excelente — enquanto disposição ativa — deve denotar virtude moral. Contudo, Hexis não significa um hábito passivo, mas um estado da alma que direciona o indivíduo a agir corretamente de maneira consistente. O amor-amizade perfeito, distinto do utilitário ou do prazer, envolve a escolha deliberada e a reciprocidade de caminhar juntos na virtude.
À primeira vista, a Philia parece o mais acessível dos amores, dotada de um suposto potencial à incondicionalidade. Entretanto, suas duas formas instáveis — baseadas na utilidade e no prazer — subordinam-se ao acidente: não se ama o sujeito, mas algo que ele disponha ou o prazer proporcionado. Se suprimirmos o acidente, o afeto cessa instantaneamente — o que impede de elevar a afeição ao nível do Ágape. Em contrapartida, a Philia virtuosa rejeita a facilidade: concebida pela Prohairesis, é raríssima, mas constitui a única manifestação verdadeira do Eterno.
Enquanto a tradição platônica enfatiza o Eros — força impulsionadora nascida pelo desejo que anseia belo e o bem —, Aristóteles concebe a Philia como uma forma de amor sui generis, construído na doação recíproca e nutrida pela convivência intersubjetiva. Portanto, a amizade perfeita diverge tanto da carência motorizada do Eros platônico, quanto da benevolência unilateral que constitui o Ágape. Os momentos significantes desta união, resguardados pela memória e potencializados pela Philia, perpetuam-se enquanto lembrança. São laços que desafiam a efemeridade e definem, perenemente, a nossa cosmovisão e personalidade.
Questionemo-nos sobre a essência do contato humano: como um vínculo, aparentemente tão profundo e verdadeiro, pode ser desmantelado? Como algo que um dia foi o centro do nosso mundo tornou-se uma lembrança fragilizada e passageira? A nossa busca insaciável por explicações revela-se limítrofe ao arrependimento, pois a Dialética é, ironicamente, incompetente para estancar a aflição. A imprevisibilidade não se apresenta a nós como um simples Symbebekos (acidente) — um atributo circunstancial que não altera quem somos —; mas a padecemos como Steresis (privação): a ausência violenta de uma forma em uma substância que, por natureza, deveria possuí-la. Sentimo-nos não apenas mudados, mas mutilados.
Ao derivarmos conceitos da Física e da Ética, somos conduzidos pela regência do Tempo a examinar a fragilidade das relações utilitárias. Por erroneamente considerá-las imprescindíveis, surpreendemo-nos quando, sujeitas à degradação das circunstâncias — uma mudança geográfica, um conflito ou uma simples reordenação de prioridades — elas desvanecem, revelando um vácuo que jamais deveria ter sido preenchido um bem meramente aparente. Em contraste com a Philia verdadeira, que sustenta a memória ativa e resiste à reescrita da causalidade, tais laços dependem da contiguidade física: extinta a convivência, resta somente o silêncio, onde outrora a vida pulsava como a impetuosidade do coral em Ode an die Freude, a obra-prima de Friedrich Schiller.
Ainda sob a indiferença temporal, tais relações não resistem como capítulos, mas decaem a discretas notas de rodapé. São os vestígios de histórias paralelas renegadas — que, invisíveis a um leitor desatento, foram exiladas para a margem do esquecimento. Ali, notam-se as ausências nos agradecimentos: o espaço permanece vazio pois, noutra causalidade, já foi o motivo da nossa alegria.
Ainda que a Física concebesse tal movimento, uma intervenção direta no passado desencadearia consequências e paradoxos. Este dilema nos lançaria num labirinto não apenas lógico mas moral: o abismo de uma causa que nasce do seu próprio efeito. Ao reescrevermos uma ação, poderíamos anular a condição de nossa própria existência. A causalidade não funciona somente por simples sucessão mecânica, mas como uma tecitura de destinos: se refizéssemos um único fio, arriscaríamos esgarçar a trama inteira, comprometendo a substância de quem somos no presente.
Durante a reminiscência, revisitamos esses relacionamentos, onde éramos, um para o outro, os arquitetos de uma realidade compartilhada. Naquele momento, a conexão transcendia a mera aparência sensível: era dotada de uma substância que guiava ambos ao amor virtuoso, onde a palavra era ato e o gesto, palavra. Todavia, o Tempo, com sua implacável linearidade, impôs uma brusca ruptura a este universo, exilando-nos em destinos apartados. Relembramos os versos de Rabindranath Tagore, “Certa vez sonhei que éramos queridos um para o outro… acordei para descobrir que éramos estranhos”, sinalizando que hoje caminhamos em jornadas paralelas: habitamos o mesmo horizonte em terras diferentes, de modo que nossos destinos jamais voltarão a se cruzar.
Se a finalidade última do homem é a Eudaimonia, o crescimento não é um evento aleatório, mas um processo ordenado onde a potência se converte em ato, sob a orientação do Intelecto. Nesse itinerário, o erro não é um desvio, mas o próprio substrato da substância; é a privação que aponta para a virtude que nos falta conquistar. A falha não determina o destino, mas evidencia uma potência clamando por ato.
Ainda que pudéssemos reconstituir esses elos perdidos, deveríamos? Não se trata apenas daqueles rompidos no passado, mas dos que tecemos agora e dos que projetamos para o futuro. Os porquês que outrora nos aprisionaram podem já não ter relevância. Talvez essa paralisia volitiva advenha justamente do enfraquecimento da memória, impedindo-nos de abraçar as oportunidades que o presente nos oferece.
O cessar destes laços não se submete a um fluxo externo e inconstante, mas denuncia a fragilidade da nossa ordem interior: assistimos — lúcidos, mas hesitantes — as tentações baterem na porta da nossa consciência e puxar-nos de volta ao que já não existe. O drama não reside na ignorância do caminho certo, mas na agonia de quem, enxergando claramente a virtude, curva-se à tirania do afeto.
Assim, o que a memória assimila deixa de ser peso morto para integrar a substância de quem somos. Ainda que os laços se cortem e o ciclo da convivência se encerre, a virtude partilhada permanece perene. O que outrora conjugávamos no pretérito imperfeito do subjuntivo — o reino das possibilidades incertas — converte-se, enfim, na solidez do presente do indicativo.
Portanto, enquanto a “viagem no tempo” estimula a imaginação e nos proporciona uma maturação da Inteligência, também nos induz à reflexão acerca da percepção da realidade. Refazer o ontem é a tentação do apetite tirânico, mas na resistência a ela que reside a Virtude; conforme alertara o romancista L. P. Hartley: “o passado é um país estrangeiro” — e jamais poderemos chamá-lo de lar.
A aceitação fundamenta a vida plena, pois a prudência não busca manipular o inalterável, mas ordenar a ação para o bem. Se a relação é o laço, o tempo não é a lâmina que o corta, mas a prova que testa sua firmeza. O presente é o ponto de tensão onde a consciência opera: os erros, portanto, não são acidentes externos, mas a frouxidão que desata o nó ou a rigidez que o rompe.
